O ser humano encerra dentro de si uma capacidade, que se pode dizer infinita, de buscar o conhecimento e entender pelo menos uma microscópica fração da Criação e, mediante o uso dessa capacidade, em estágio evolutivo muito além estaria, não fossem os fatores contrários também integrantes de sua natureza. O poder de construir acaba sendo prejudicado, por exemplo, pela atenção demasiada a partes, que seriam meios e não um fim em si, num processo de inversão de valores, tão comum na época atual que aos menos avisados pode parecer normal. Ultrapassado determinado limite, essa concentração exagerada numa atividade humana, de qualquer natureza, surge então o fanatismo em cuja esteira se abala o equilíbrio das relações entre os homens. Como já dito antes, pode ser de qualquer natureza, mas três tipos se destacam por sua universalidade e pelos estragos que já provocaram e ainda provocam, em todo o mundo.
O fanatismo político-ideológico é o pior deles, pois figura entre as principais causas de guerras, sem se falar nas perseguições isoladas contra indivíduos como reação a posições políticas divergentes. No mesmo nível do fanatismo político, o de natureza religiosa provoca outro tanto de guerras e perseguições, valendo lembrar que a colonização da América do Norte, com consequente destruição das civilizações nativas, se deveu, em parte, à fuga de perseguidos religiosos europeus. É interessante observar o paradoxo, pois toda religião tem por princípio a busca da divindade, ou Deus, e para isso prega a harmonia entre os indivíduos como condição básica para se atingir aquele objetivo. Entender o porquê de tanto sangue derramado entre meios diferentes, quando se tem consciência do fim único, é o grande exercício mental para os que crêem que, no fundo, bem no fundo, o ser humano é bom. Só que, às vezes, lhe falta oportunidade para demonstrar ou, se o faz, é de maneira equivocada. Como terceiro ponto da trilogia fanática tende a crescer o futebol, mais aqui menos acolá, mas sempre a carrear tensões entre grupos de torcedores a ponto de multidões se engalfinharem nos estádios, como dois exércitos em campo de batalha, incluindo-se mortes como resultado. Mas o ponto mais negativo, por muito que isso choque, não está na violência apontada. Está no desvio de energias, de recursos e do saber mais necessários no processo do desenvolvimento humano. Como pequeno exemplo relato o que presenciei há poucos dias. Caminhava eu pela rua, quando às minhas costas ouvi duas pessoas a conversar. Pelo timbre das vozes, conclui que uma era adulta e outra criança. O adulto falava animadamente de futebol. Descrevia técnicas e artimanhas de jogadas como se conversasse com outro de sua mesma idade e capacidade de compreensão do assunto. Quando passaram por mim, percebi tratar-se de um homem com cerca de cinqüenta anos e um garoto entre oito e dez anos. Será que aquele homem não tinha assunto mais proveitoso na conversa com um garoto em idade escolar?
O futebol tem sua importância como esporte, uma necessidade para a saúde do corpo, mas deveria ficar lá no campo, pois cá fora outras prioridades nos aguardam. Entretanto, pior li depois sobre o que acontece na Argentina, por obra de um grupo de fanáticos em torno do herói nacional do futebol. Foi fundada uma "igreja" para cultuar o jogador nº 1 argentino, figurando ele próprio como uma espécie de "deus". Até um novo calendário foi criado, tendo como ano 1 o do seu nascimento. O dia do seu aniversário ficou estabelecido como dia da "natividade", uma cópia do Natal cristão.
É o fim da picada! Dar sentido idólatra-religioso à admiração, já exagerada, a destaque em qualquer atividade humana revela degenerescência na compreensão dos valores mais altos, que dão sentido à vida.
http://www.ouropreto-ourtoworld.jor.br/fanatismo.htm
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