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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Troglodictus brasiliensis

Ainda vivas na memória as circunstâncias cruéis e desumanas da morte do índio Galdino, em Brasília, bem como ainda presente, na garganta, uma "trava" de indignação pelo desfecho do caso no que se refere aos autores, eis que somos sacudidos por outra monstruosidade praticada por jovens no final da adolescência. Assim como os algozes do índio Galdino, os assassino do garçom, em Porto Seguro, agiram com instintos de selvageria sem qualquer contrapartida em agressividade da parte oposta. O primeiro estava a dormir num banco da praça, quando os cinco jovens lhe lançaram álcool seguido de fogo; o segundo estava a trabalhar, sendo surpreendido com murros, chutes e pauladas, quando tentava conduzir seu trabalho de acordo com as regras. Também são estudantes da classe média e brasilienses, com a diferença que os de agora cometeram o crime fora de seu domicílio.

Em ambos os casos, o comportamento dos autores reclama atenção sobre o porquê, pois não se configurou comoção coletiva, fator geralmente presente nos atos de linchamento contra agentes de danos contra a pessoa humana. No calor de um tumulto ou imediatamente após o dano causado, explica-se a fúria coletiva contra autor ou autores, o que em certas circunstâncias até se justifica a fuga destes nos casos de atropelamento no trânsito. Mas, sem nenhum motivo aparente, a agressão coletiva, por menor que seja, leva-nos a temer o nosso próprio comportamento diante de situações em que, eventualmente, interagimos com o grupo do qual fazemos parte. Tal tipo de agressão, em que a violência ocorre subitamente, escapa aos padrões de comportamento humano e sugere que se busquem possíveis causas em fatores até agora desconsiderados, como o excesso de barulho por exemplo. Não sei se nesse quadro se enquadraria a brutalidade contra o garçom em Porto Seguro. De acordo com o noticiário, os amigos dos agressores teriam ficado surpresos pois os conheciam individualmente como rapazes pacatos, avessos a confusões. Sabe-se que em grupo o indivíduo se solta e compensa uma natural inibição, mas, a ponto de cometer homicídio, sem que apenas um dos sete agisse ao contrário, como se tivessem planejado toda a ação, é demais para quem tenta compreender a estupidez humana em certos momentos. Ainda segundo o noticiário, a agressão foi em resposta ao pedido de desocupação da mesa, que o grupo usava para consumir bebidas adquiridas em outro local; pedido muito justo, uma vez que a mesa era destinada a clientes da casa. Percebe-se então uma questão de educação para o acatamento de regras. Pelo visto, os rapazes não estão acostumados a ter suas vontades contrariadas, coisa muito comum na educação familiar moderna.

Sob o argumento de que restrições às ações infantis e desejos contrariados formam indivíduos incapazes de tomar iniciativas, pais criam pequenos imperadores no ambiente doméstico, aos quais não se nega nada, nem mesmo sob a realidade de algum sacrifício da família. E está claro que, por razões óbvias, isso acontece nos lares com menores restrições de consumo, em resposta a melhor poder aquisitivo. Toda a facilidade encontrada na satisfação de suas vontades tais indivíduos esperam ver repetida cá fora, quando a liberdade transpõe o portão doméstico. O mundo deve curvar-se à sua vontade, ou se sujeita à fúria com a qual teria respondido a uma negativa paterna, depois de extrema condescendência na infância remota.

Para explicar o comportamento desses novos trogloditas brasilienses, espera-se não venha alguém dizer que foi apenas uma brincadeirinha que resultou em tragédia.

nbatista@uai.com.br

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